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ilustre visita

nossa casa teve uma visita inesperada e bem vinda : papai apareceu para dar as boas vindas para suas meninas. não que as outras pessoas que vêm tomar cafezinho com a gente não sejam importantes, mas papai trabalha muito e dificilmente tem tempo para bobagens… eis que ele aparece alguns anos depois para parabenizar e estimular suas “grandonas” a continuarem a escrever suas memórias, reflexões e outras anotações familiares.

gosto dessa parábola com o passado. vira e mexe me percebo voltando no tempo e sentindo o cheiro da polenta da minha avó ou  a emoção de ir no estádio de futebol pela primeira vez acompanhada de papai ou lembrar da paranóia com água que minha mãe sempre sofreu – e sofre até hoje – ou lembrar dos tombos que eu e minha irmãzona levávamos com nossos novos patins novos e velhos.

existem algumas fotografias que ficaram registradas e que de certa forma viraram sonhos recorrentes até hoje… me vieram alguns exemplos:

fim de semana na praia. muitas vezes íamos pro canal 3 onde havia a barraca da associação dos médicos e como papai era filiado, lá estávamos nós em um dos compromissos sociais dele . Santos no verão é quente demais e lembro que poder ficar numa barraca era um alívio aos pobres mortais, aquela areia pelando não era agradável para ninguém, portanto estávamos protegidos. Mamãe mais ainda, já que sempre vestia umas roupas esvoaçantes incríveis e modernas, óculos e chapelões. Andava na tendência a moça. Hoje eu sei, mas naquela época eu já admirava a beleza daquela deusa praiana. Papai ficava ali na caipirinha e cervejinha dele com os amigos falando sei lá sobre o quê. As conversas deles eram sempre um mistério pra mim, uma Atlântida submersa e invisível. E as duas irmãs ali, quase torrando, loucas para cairem na água, mas tomando coragem para correr pela areia escaldante, já que a caminhada até o mar era longa devido à extensão da areia de Santos. E aí entra o sonho de sempre vindo de uma paranóia de mamãe: ela, apavorada com a idéia de ter que entra no mar, mas tendo que nos acompanhar, entrava no água como quem ía pra cruz. aí eu lembro de ter perguntar: “mas por quê, mãe, se a água daqui é tão calma ? ao que ela me responde que sempre imaginava que uma onda enorme viria nos engolir um dia. tempos depois, vira e mexe me percebo sonhando com essa imagem surreal, eu e quem for no mar, ou na areia, e uma onde gigantesca vem e tenta arrastar o mundo todo pro infinito. geralmente não sou engolida, mas consigo ver todo aquele arrastão marítimo. bom.. freud pode me explicar um dia.

fim de semana no campo. viajávamos todos pra Campos de Jordão, ou Valinhos, ou Águas de Lindóia, ou Poços de Caldas, em busca de mato, cavalos, doce de leite e muita comida tropeira. até o pimpollho já exisitia, o nosso bô, como eu e irmã gostávamos de chamá-lo. eu amava cavalos, me imaginava sempre uma amazona forte e poderosa – nesse momento esqueci alguns substantivos referentes à vida campestre.. falta de hábito. mas enfim. lembro que numa dessas viagens estávamos todos lá, a família trapo, cada qual no seu quadrado, ou melhor, no seu cavalo. eu e irmã, sempre juntas – por isso também brigávamos – no mesmo cavalo em marcha lenta quase parando. mesmo assim, conseguimos bater num galho de uma árvore. mamãe com o bô em outro, algo mais plácido imagino, tipo propaganda vinólia, devia vestir algo esvoaçante e ainda acompanhada daquele anjinho loiro, pronto. e papai sozinho em seu alazão, o símbolo da virilidade, o desbravador, meu herói, cavalgando com desenvoltura pelo pasto ( não era pasto, mas não me vem a outra palavra). quer dizer, esse cenário só era perfeito na minha cabeça, pois na realidade, ele estava em maus lençóis e essa imagem virou  mais uma fotografia engraçada. esse herói viril nada mais era do que papai em cima de um cavalo completamente descontrolado louco pra voltar pro estábulo. papai sem controle nenhum, quase caindo, tentando desesperadamente parar aquele chucro antes que fosse tarde demais. e foi. quando o cavalo finalmente conseguiu chegar no seu ninho ainda no disparo, papai teve que rapidamente se pendurar na entrada do estábulo para não bater a cabeça. e ficou lá, meio patético, morrendo de dor, mas mesmo assim,  herói de filme de faroeste. grande papai ! responsável também por mais um sonho recorrente: eu, cavalgando a toda velocidade e na hora H tenho que  me pendurar na entrada para não levar na cabeça. freud teria mais uma sessão comigo.

mais algumas de muitas lembranças a terem seu lugarzinho aqui, ou na sala de jantar, ou na cozinha, tanto faz.. o que importa é que fazem parte da mesma casa. Os capítulos são muitos e os personagens, em sua essência, brilhantes, engraçados e malucos, mas com corações genuinamente bons.

resumo da ópera: família ê,  família á,  famíííliaa…


Como tudo começou

Lembro do dia em que minha irmã nasceu. Vinte e dois de abril de 1975. E eu tinha apenas três anos. Meu pai me levou ao hospital e me disse: você vai conhecer a sua irmã. Irmã? O que é isso? Não sabia, porque, por enquanto, era somente eu, meu pai e minha mãe.

Minha mãe que ficou bem estranha antes da minha irmã nascer. Começou a aparecer uma barriga, e ela me dizia que a minha irmã estava lá dentro. Pensei: “como ela conseguiu isto? vai ver que comeu algo estragado!”

Bem, lá fui eu com meu pai até o hospital. Entrei com ele pela porta da frente, sem precisar passar pela recepção. O bom de ser médico é isso, ninguém te barra no hospital.

Não me lembro se subi de escada ou elevador. Só sei que cheguei num corredor enorme, parecia iluminado pela luz do dia. Passei por uma recepção e meu pai me levou até um vidro grande. Ele bateu no vidro e uma enfermeira fez um sinal para esperar. Ele me colocou num banquinho e veio a enfermeira com a minha irmã nas mãos.

Eu vi uma coisinha branca de olhos fechados. Careca. Tinha umas manchinhas vermelhas no rosto. meu pai disse que era coisa do parto (eu ouvi ele dizendo isto para a minha avó Gioconda). O mais interessante é que eu me lembro da roupa dela, era um vestidinho, ou melhor, parecia um vestidinho, azul com bolinhas vermelhas. Como estava calor, ela só estava com isto. Ela se mexeu, as mãos pequenas abriram e fecharam. E a enfermeira a levou embora.

Não entendi muita coisa. Depois fui ver a minha mãe, mas ela estava dormindo. Só vi a minha avó Izaira levantando e pedindo para falarmos baixo, porque a minha mãe estava cansada. Também, se a minha irmã estava dentro dela, deve ter sido uma indigestão daquelas. Ingenuidade a minha. Também, eu tinha três anos.

aqui vão minhas impressões do Oscar 2008

- gosto desse apresentador Jon Stewart. tem um humor bom, é judeu e muito charmoso. demais.
- eu realmente nunca vou entender essa predileção americana pelo kitsch sem criatividade. o cafona mais profundo. o evento tem uma presunção de ser o mais chique do mundo mas sinceramente não me convence. talvez por isso o acho incrível. tudo muito vermelho. todas com vestidos muito longos, muito brilhosos, muito fofos e com rabos, tudo muito. mas esse muito é a cara da cultura americana. impressionante. porque não é só por lobby que em todas as edições do Oscar as indicações para melhor canção original sempre contêm músicas de filmes da Disney. é que de verdade as pessoas gostam, são criadas com isso, estudam pra isso. outros, que são da minha turma, não gostam. na verdade eu tenho medo de pessoas que possam ficar escutando essas músicas em casa. quem são essas pessoas eu me pergunto. mas tudo bem, é só um senso crítico, sem preconceito ou julgamento. é fato.
-o george clooney. ele merece sempre um capítulo à parte. não só por ser incrivelmente charmoso, sexy, irônico, gostoso, inteligente e bem humorado. por tudo isso ser verdade é o que menos importa quando me atento às escolhas de vida dele. seus trabalhos, projetos e causas são sempre bem escolhidos e coerentes, o que me faz admirá-lo e ter vontade de sentar com uma garrafa de whisky, cigarros e conversa all night long. um pouco mais seria a realização plena do sonho, mas isso faria o impossível tornar-se real. portanto, voltando ao raciocínio. não, voltando não. tenho que dar uma pausa no george para falar de coisas mais importantes.
- a NET. o OSCAR vai mesmo para NET. o pior OSCAR. posso dizer com toda força no coração e argumentação lógica suficiente e experiência absoluta que essa é a pior empresa ou o quer que seja essa falência corporativa do mundo. esse agora foi o momento catártico das falhas trágicas da NET no meio da transmissão. agora parou de vez e eu não cheguei nem ao prêmio de ator coadjuvante. ou seja, tive que ficar ouvindo todas as piores canções do mundo para acabar agora com uma frase na minha frente dizendo verifique se seu decodificador está conectado ao cabo da NET. já verifiquei. se o problema persistir, ligue para a Central de Relacionamento NET 4004777. não adianta nada. infelizmente, só nos leva a sair do sério, ter atitudes horríveis, humilhar o atendente máquina, mostrar tudo o que há de cruel e raivoso dentro de nós seres imperfeitos e passíveis de fúria e descontrole. quem já não passou por isso ? quem já não teve uma vontade sincera de matar um atendente de telemarketing vislumbrando cenas de torturas agonizantes ? bom, se vc não é um desses, tudo bem, eu sou. e tenho certeza que tenho uma legião de companheiros nesse nível. bom, enfim, como não estou conseguindo nada da NET nesse momento, to escrevendo esse relatório absurdo para mim mesma. ao menos a expectativa do rídiculo se transforma em palavras e frases. enquanto isso, meu amigo elcio me informa o que acontece no momento e promete fazer uns inserts do oscar por telefone. o que, mais tarde, posso dizer que não aconteceu. mas naquele diz que estava chato e morno, com homenagens, prêmios desinteressantes – para nós que não sabemos muito dessa parte técnica -, mais homenagens e homenagens aos mortos desde a edição passada até agora finalizando com Heath Ledger, a perda mais trágica e inesperada do momento, um ator absolutamente talentoso que foi-se no início do auge por calcular errado a quantidade de remédios. sete tipos de uma vez só ? dizem que foi tomado pelo Curinga. está vendo, por isso que sempre digo que ator tomado pelo personagem é perigoso…
- a Tv continua sem sinal e vou ficando mais desesperada e ansiosa do que nunca. esse silêncio está me deixando tensa. mas claro que não é por causa do Oscar, ele é uma metáfora patética do meu momento em questão. mas hoje ele era meu ópio essencial. a TV toda. e tudo aqui se calou. o telefone. a NET. a internet. portanto não posso mais fazer minha cobertura do Oscar. eu realmente estava curtindo minha personalidade jornalística em desenvoltura. posso escrever mais um pouco do que já vi e menos um pouco do que possa estar acontecendo agora. ou escrever amanhã depois de tudo. ou não.

Abertura da casa

Apenas para dizer que aqui estou para lavar roupa suja, fazer comidinha caseira e contar histórias para dormir. como toda boa casa de família. assim é augusta.